É impossível falar de maconha sem mencionar o THC. Isto porque o tetrahidrocanabinol (THC) é o canabinoide mais conhecido por seus efeitos psicotrópicos. Dessa forma, o THC é sempre mencionado por ser o responsável por deixar “chapado”. Assim, o THC costuma estar associado ao uso recreativo da maconha. O que muita gente não sabe é que o THC possui também diversas aplicações medicinais. Por isso é fundamental promovermos o debate sobre o THC e a cannabis de modo geral com a seriedade e transparência que a planta exige. E a melhor ferramenta é o conhecimento.
Do ponto de vista medicinal, o THC oferece uma alternativa terapêutico para o tratamento de dores neuropáticas e oncológicas, distúrbios musculares, náuseas e vômitos. Já no uso recreativo do THC, ele aparece como a substâncias reconhecida pelos efeitos psicotrópicos da maconha. Embora o uso recreativo do THC cause a ativação do sistema endocanabinoide, é fundamental debatermos os riscos do fumo e as possíveis estratégias de contenção de danos.
Neste texto, convidamos você a conhecer um pouco mais sobre o temido THC e debater de modo sério e coerente sobre o uso medicinal e o uso adulto da maconha. Confira:
O que é o THC?
Conforme sabemos, o THC é o fitocanabinoide responsável pela onda da maconha. A substância também é chamada de delta-9-tetrahidrocanabinol (Δ9-THC), devido à estrutura molecular mais usual do composto. O THC surge durante o processo de maturação da planta. Com a exposição ao sol, raios UV e ao calor, o ácido tetrahidrocanabinólico (THCA) se converte em THC, processo conhecido como descarboxilação.
Nos diferentes tipos de cannabis, a concentração do THC pode variar de 0,2% a mais de 20%. De modo geral, os quimiotipos de cannabis com baixo teor de THC são conhecidos como cânhamo ou cânhamo industrial. Já as genéticas com maior concentração de THC costumam ser fruto de cruzamentos para potencializar este canabinoide. Assim como os outros canabinoides, o THC está presente em maior quantidade nos tricomas das flores da cannabis. Contudo, há também THC nas folhas da maconha.
Quais são os efeitos do THC?
O THC é o principal canabinoide euforizante. Por isso ele é o grande responsável pela sensação do “barato da maconha”. Os efeitos do THC podem variar conforme a dose, frequência de uso e a sensibilidade do indivíduo. No entanto, é comum que o THC, seja recreativo ou medicinal, provoque a sensação de euforia, felicidade e relaxamento intenso, além de alterações na percepção auditiva e visual. Um outro efeito comum do uso do THC recreativo envolve a melhora do apetite e do paladar, conhecida como “larica”.
Os efeitos do THC no corpo se dão através da interação do componente com o sistema endocanabinoide. Quando ingerido, o THC atua sobre os mesmos receptores endocanabinoides que a anandamida, em especial os receptores endocanabinoides CB1. Os receptores CB1 estão presentes principalmente no cérebro e sistema nervoso central e regulam funções como a coordenação, memória, humor e percepção da dor. Assim, o THC atua sobre estes receptores causando a sensação de relaxamento. O THC também possui afinidade com os receptores CB2, presentes principalmente no sistema imunológico e nos tecidos periféricos e mais envolvidos na resposta imune e anti-inflamatória.
Aplicações medicinais do THC
O THC possui propriedade relaxante, analgésica, antiemética e anti-inflamatória. Dessa forma, o THC pode ser uma opção terapêutica para o tratamento de dores neuropáticas e oncológicas, distúrbios musculares, náuseas e vômitos. O uso medicinal do THC pode ser feito em associação ao CBD, no uso isolado do THC ou como adjuvante de outros canabinoides em óleos full spectrum, que preservam todos os componentes da planta.
Além disso, o THC apresenta efeitos de estímulo da fome, podendo ser uma ferramenta para o tratamento de distúrbios alimentares, como anorexia ou pacientes com dificuldade de ingestão de alimentos devido a outras doenças associadas, como em tratamentos oncológicos. Igualmente, ele apresenta ainda efeitos anticonvulsivantes, ansiolíticos e pode auxiliar no tratamento de patologias que causam espasticidade muscular.
Uso recreativo do THC
O uso recreativo da cannabis, também chamado de uso adulto e responsável, é o ato de usar a planta sem a intenção medicinal. O fumo do famoso baseado é a forma mais comum do uso recreativo. Por seu efeito sobre o sistema nervoso central, o THC atrai a atenção e desperta o desejo dos usuários. O ato de fumar libera os canabinoides, que entram no corpo através do sistema respiratório e seguem pelo corpo através da corrente sanguínea.
A ingestão da cannabis por meio do fumo pode ter a absorção dos canabinoides de modo mais rápido, sendo possível sentir os efeitos a partir de cerca de 15 minutos. No entanto, o fumo pode ser uma forma de uso danosa ao sistema cardiovascular. Por isso, o uso recreativo do THC e da cannabis de modo geral é desaconselhado para fins terapêuticos. O uso adulto e responsável deve ser uma escolha consciente do indivíduo, tendo em mente os riscos associados.
Contudo, cabe destacar que no Brasil o uso recreativo da maconha com alto teor de THC não é legalizado. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) descriminalizou o porte de maconha para consumo pessoal, estabelecendo o porte em até 40 gramas de maconha ou o cultivo de até seis plantas fêmeas. Apesar disso, o ato ainda é considerado uma conduta ilícita, mesmo sem punição penal.
Redução de danos no uso recreativo da maconha
A redução de danos no uso recreativo da maconha com THC busca garantir segurança aos usuários. Ela reconhece que drogas são amplamente disponíveis em nossa sociedade e que devemos debatê-las como questão de saúde pública e não como questão de polícia. Um dos resultados do proibicionismo e da guerra às drogas é que parte da cannabis consumida por usuários costuma ter origem, compostos e perfil de canabinoides desconhecidos.
É o caso do famoso prensado, que pode conter substâncias contaminantes ou desenvolver mofo e demais micro-organismos prejudiciais à saúde. Nesse sentido, aconselha-se o uso de buds (inflorescências) de origem conhecida. Por isso, o autocultivo é uma bandeira defendida por ativistas canábicos. Além disso, recomenda-se o uso de papel seda e piteiras, para amenizar a absorção de gases danosos oriundos da queima do cigarro.
O fato é que o fumo é um hábito extremamente popular e que atravessa diferentes culturas ao longo dos séculos. No entanto, a absorção de fumaça a altas temperaturas causa diversos riscos à saúde. Por isso, a vaporização da cannabis pode ser uma opção mais segura para o uso recreativo da flor de THC. A vaporização da cannabis é um método de consumo que aquece a planta ou extratos concentrados a temperaturas controladas (entre 157°C e 220°C).
Assim, a vaporização libera canabinoides e terpenos sem atingir o ponto de combustão, diferentemente do fumo, que pode atingir até 900°C. A vaporização é também uma das formas de uso da maconha para fins medicinais. Outra forma medicinal que pode ser uma alternativa ao uso recreativo do THC são os óleos de cannabis.
O óleo concentrado de THC oferece uma opção segura e eficiente para absorção de canabinoides em comparação ao uso recreativo. No entanto, cabe destacar que o uso do óleo de cannabis deve ser feito sob supervisão de um médico prescritor. A APEPI conecta associados a profissionais de saúde experientes na prescrição de cannabis. Saiba mais e entre para a família APEPI.





