A endometriose afeta cerca de 7 milhões de mulheres brasileiras, mas pode levar até dez anos para ser identificada. Em muitos casos, o diagnóstico costuma demorar, os tratamentos disponíveis aliviam mas raramente resolvem, e a busca por alternativas faz parte da rotina de quem convive com a condição. É nesse contexto que compostos da cannabis como o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC) têm despertado interesse crescente no tratamento da endometriose.
Entenda o que é a endometriose, como a cannabis pode ajudar no controle da dor e da inflamação e o que os estudos mais recentes já comprovam sobre essa relação.
Cannabis pode ajudar no tratamento da endometriose?
Sim, e as pesquisas mais recentes apontam nessa direção. Para entender o potencial da cannabis no tratamento da endometriose, é preciso considerar o papel do sistema endocanabinoide no organismo. Essa rede de receptores distribuída por todo o corpo está diretamente envolvida na regulação da dor, da inflamação e da resposta imunológica, funções frequentemente afetadas pela endometriose.
Nesse sentido, pesquisas indicam que mulheres com endometriose apresentam alterações que desregulam o funcionamento do sistema endocanabinoide. Essa desordem pode contribuir para a amplificação de sintomas típicos da condição, como a dor pélvica e a inflamação. Acontece que compostos da cannabis como o canabidiol e o THC interagem com esse sistema e podem ajudar a restaurar parte do equilíbrio perdido.
Do ponto de vista terapêutico, o CBD se destaca principalmente por suas propriedades anti-inflamatórias e analgésicas. O THC, por sua vez, apresenta propriedades analgésicas e relaxantes musculares que podem ser úteis nos casos em que a dor é mais intensa.
Quando combinados em óleos que preservam todos os compostos da planta (óleos full spectrum), os dois se potencializam mutuamente. Isso ocorre por meio do efeito entourage, fenômeno em que a interação entre os compostos da cannabis amplifica os benefícios terapêuticos de cada um deles.
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O que dizem os estudos?
As pesquisas sobre cannabis e endometriose ainda estão em expansão, mas os resultados disponíveis são promissores. Uma revisão publicada em 2025 no Australian and New Zealand Journal of Obstetrics and Gynaecology analisou nove estudos com quase 2.000 participantes e concluiu que a maioria das pacientes avaliadas relatou redução da dor pélvica com o uso da cannabis.
Ainda nesse sentido, um artigo publicado em 2024 na revista Trends in Pharmacological Sciences aponta o canabidiol como um candidato terapêutico promissor para a endometriose, especialmente por suas propriedades anti-inflamatórias e antiangiogênicas. Os autores destacam que o composto combate múltiplos mecanismos envolvidos na progressão da doença, o que o diferencia dos tratamentos convencionais focados apenas no alívio sintomático.
Vale destacar que as evidências ainda não atingem o nível de robustez de condições como epilepsia, esclerose múltipla ou dores neuropáticas, onde os estudos clínicos controlados são mais numerosos. O tratamento com cannabis para endometriose deve sempre ser conduzido por um médico prescritor, que vai avaliar o histórico da paciente e definir a melhor estratégia terapêutica.
Cannabis ajuda na cólica menstrual da endometriose?
Estudos disponíveis sugerem que sim, especialmente pelo potencial anti-inflamatório do canabidiol. A cólica associada à endometriose é bem diferente da cólica menstrual comum. Enquanto essa resulta da contração normal do útero durante a menstruação, a da endometriose tem origem na inflamação causada pelo tecido que cresce fora do útero e sangra durante o ciclo. Essa inflamação, localizada na cavidade pélvica, é o que gera a dor intensa que caracteriza a condição.
Nesse cenário, o canabidiol é o composto da cannabis que tem demonstrado maior potencial de tratamento. Devido às suas propriedades anti-inflamatórias, o composto pode atuar diretamente na redução da inflamação pélvica mencionada. Pesquisas também sugerem que o CBD pode inibir a angiogênese, ou seja, a formação de novos vasos sanguíneos que ampliam as lesões causadas pela patologia.
Quando a dor é localizada, o uso de pomadas à base de CBD surge como uma possível solução. Por ser aplicado direto na região pélvica, o produto permite um tratamento focado no relaxamento muscular da área, podendo entregar alívio rápido e direcionado, sem os efeitos gerais que o óleo ingerido causa no organismo.
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Saiba mais sobre a endometriose
A endometriose acontece quando o tecido que reveste o interior do útero começa a crescer em lugares onde não deveria. Em condições normais, esse tecido é expelido durante a menstruação. Na endometriose, parte dele se desloca para outras regiões da cavidade pélvica e abdominal, como ovários, trompas, bexiga e intestino. Mesmo fora do útero, esse tecido continua respondendo aos estímulos hormonais do ciclo menstrual.
O resultado é uma reação inflamatória que provoca dor pélvica intensa, cólicas severas, dor durante as relações sexuais e, em alguns casos, dificuldade para engravidar. Os sintomas variam em intensidade, mas tendem a se agravar com o tempo quando a condição não é tratada.
O grande problema é que o diagnóstico costuma ser tardio. Muitas mulheres passam anos atribuindo os sintomas a cólicas menstruais comuns antes de receberem o diagnóstico correto, o que acaba atrasando o início do tratamento.
A cannabis possui contraindicações para endometriose?
A cannabis medicinal costuma apresentar um perfil de segurança favorável quando comparada aos medicamentos convencionais utilizados no tratamento da endometriose, como anti-inflamatórios de uso prolongado e hormônios. No entanto, como qualquer substância ativa, os canabinoides podem causar efeitos colaterais e interagir com outros medicamentos. Por isso, o acompanhamento de um médico prescritor é indispensável para garantir a segurança e a eficácia do tratamento.
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